O Teatro como Linguagem (Parte final)

por Guilherme Marin

O Teatro como Linguagem

O interesse de Derrida sobre o estudo da linguagem está em buscar os significados interiores do texto pela comparação ao que é exterior a ele, ou seja, pelo que esta linguagem traz consigo e que a limita de desvendar totalmente as intenções do autor.  Da mesma forma procede Artaud que entende o teatro desvinculado do rigor de reprodução da palavra, mas não a exclui, apenas a trata como um elemento que deve ser conjugado a outros para a construção da cena onde se encontra a performance que conjuga junto ao público a sua presentificação.

A base teórica do teatro de Artaud pode ser encontrada em sua obra intitulada “O Teatro e seu Duplo” que expõe a revolta do autor ao formato tradicional de representação européia que busca apenas a reprodução de uma dramaturgia.  O duplo, para Artaud, é este lugar-outro que não se deixa guiar pela linguagem estabelecida e orientada por uma estrutura padronizada.  Antes é o estabelecimento de uma gramática própria que se constrói à medida que o espaço cênico é preenchido pela construção de signos a partir de inúmeras possibilidades de estímulo aos sentidos do espectador.

Para mim, o teatro se confunde com suas possibilidades de realização quando delas se extraem as conseqüências poéticas extremas, e as possibilidades de realização do teatro pertencem totalmente ao domínio da encenação, considerada como uma linguagem no espaço e em movimento.[1]

Para Artaud o teatro europeu deixa em segundo plano tudo o que é especificamente teatral para fazer como que a palavra, unicamente, se manifeste e se represente ao público tal como fora idealizada por seu autor.  Neste sentido, nasce morto e morto permanece, pois a partir daí nada se cria uma vez que a mera representação do diálogo pertence ao livro e não à cena que deve se dirigir aos sentidos a fim de expressar pensamentos que escapam à linguagem articulada.

Do mesmo modo, Derrida elabora sua crítica à concepção de linguagem falada como modelo fundante da linguagem escrita e desenvolve seu conceito de escritura baseada no impulso de significação primeiro, derivado dos gestos e não dos sons, e que não se dirige pelo logos que visa a mera reprodução fonética.  Tanto Artaud quanto Derrida recorrem ao conceito de hieróglifo que é provido de significação em si, capaz de descrever ou caracterizar algo e não apenas cumprir seu papel de fixar a pronúncia das palavras.

A escritura, neste sentido simbólico, é portadora de sentido, para Derrida, antecede à “phoné” e revela a vida por sua capacidade de desdobramento de significados ao contrário do modo como correntemente é compreendida.

A escritura, no sentido corrente, é letra morta, é portadora da morte.  Ela asfixia a vida..[2]

Do mesmo modo em que a cena se direciona aos sentidos abertamente o espaço se fecha e contém em si a capacidade de produzir significados.  Este conceito espacial contido no lugar de presentificação da cena é importante para Derrida que traz a análise de Artaud imediatamente antes do capítulo intitulado “Freud e a Cena da Escritura”.

Pois o teatro da crueldade é realmente um teatro do sonho, mas do sonho cruel, isso é, absolutamente necessário e determinado, de um sonho calculado, dirigido, em oposição ao que Artaud julgava ser a desordem empírica do sonho espontâneo.[3]

A compreensão do sonho e da maneira como é elaborado por Freud é importante auxilio na descrição da transitoriedade da presentificação da linguagem.  Como a vida e a constante presença da morte formam um sistema fechado de produção de significações em constante movimento.

A repetição, ou a mera imitação, não é capaz de gerar a vida, mas antes demonstra a morte enquanto algo que não se transforma em algo novo.  A diferença e a transitoriedade trazem consigo a rotatividade de ciclos que compreendem o nascimento e a morte em um sistema que se renova e produz significado.


[1] ARTAUD, Antonin – O Teatro e seu Duplo, Martins Fontes, São Paulo, 1999, pág. 46

[2] DERRIDA, Jacques –Gramatologia, Editora Perspectiva S/A, São Paulo, 1999, pág. 20

[3] DERRIDA, Jacques – A Escritura e a Diferença, Editora Perspectiva S/A, São Paulo, 1995, pág. 164

O Teatro como Linguagem (Parte 2)

por Guilherme Marin

O TEATRO PRIMITIVO

De certo modo é compreensível a concepção do teatro europeu centrada na obra teatral escrita, uma vez que em sua avaliação histórica resta-nos o estudo da história da dramaturgia em contrapartida à sua presentificação performática que não pode ser descrita, apenas vivenciada.

Em sua origem, no entanto, sabemos que o teatro nasceu da necessidade de proporcionar uma experiência mitológica através de formas arquetípicas da expressão humana em que os xamãs se utilizavam de máscaras e acessórios que remetiam ao objeto de seu culto.  Traziam consigo, portanto, uma necessidade de exteriorização de conflitos da alma humana que podiam ser coletivamente compartilhados.

Nas sociedades primitivas surgiu a necessidade de criar situações em que as pessoas pudessem vivenciar os ritos ou situações ligadas à religiosidade e à vida prática em que a caça, as passagens da vida e o conhecimento mitológico eram presentificados para simular ou evocar espíritos relacionados às culturas locais.  Estes rituais performáticos eram capazes de alçar o imaginário coletivo a um plano onde as leis que regiam as significações se diferenciavam daquilo que tornava a convivência comum inteligível no cotidiano.  Ao portar uma máscara um homem se transformava em um animal, ou em um espírito, e apenas neste contexto essa percepção era partilhada pelos participantes do ritual.  Esse processo de transformação pela presentificação atinge os sentidos de forma diferenciada e produz significações à medida que se desenvolve.

O encanto mágico do teatro, num sentido mais amplo, está na capacidade inexaurível de apresentar-se aos olhos do público sem revelar seu segredo pessoal.  O xamã que é o porta-voz do deus, o dançarino mascarado que afasta os demônios, o ator que traz a vida à obra do poeta – todos obedecem ao mesmo comando, que é a conjuração de uma outra realidade…[1]

Estas práticas coletivas foram identificadas em diversas culturas que chegaram à nossa época com pouco contato com o resto do mundo e com a preservação de suas tradições, como os aborígines australianos, os índios cherokees norte-americanos ou os esquimós.  Todos possuem registros de práticas em que alguns membros da comunidade vestiam máscaras e utilizavam instrumentos a fim de personificarem elementos da natureza, animais ou figuras abstratas do imaginário de suas culturas.  A origem primitiva do teatro é deduzida por extrapolação desta percepção comum em culturas distintas.

Nos rituais de caça os animais representados são mortos e neste ato reside o sacrifício em favor da vida.  Esta presentificação remete ao voto da comunidade para a abundância de alimento em determinadas temporadas do ano e traduz os anseios coletivos que encontram neste formato performático a possibilidade de dar vazão à sua expressão.

… uma afirmação necessária só pode nascer renascendo para si.  Para Artaud, o futuro do teatro – portanto o futuro em geral – só se abre pela anáfora que remonta a véspera de um nascimento.[2]

O mistério da morte acompanha a vida e a idéia de passagem, de transformação e de renascimento são retratados, com grandes similaridades, em diversas culturas ao redor do mundo.  O teatro traz consigo estes conceitos em sua origem e sua revelação se dá no instante de sua presentificação.  Existe uma mágica associada ao teatro que torna possível a apreensão por todos os sentidos e que, em seu conjunto, constituem regras à medida que se desenvolvem no espaço e na mente em movimento de transformação constante dos que vivenciam sua experiência .

O procedimento de retomada da gênese da linguagem teatral empreendido por Artaud se assemelha à filosofia de Derrida que desconstrói conceitos e busca as contradições internas da filosofia a partir do resgate dos termos historicamente retomados e transformados a cada nova geração de pensadores.

Este processo genealógico busca trazer à tona a estrutura dos conceitos que são estruturantes do objeto analisado.  Na filosofia, Derrida entende o processo de desconstrução como a busca por um texto que esteja liberto de conceitos pré-estabelecidos resgatados continuamente em um processo de afirmação e negação de termos conjugados pela metafísica ao longo da história que são atualizados por cada autor.  No teatro, Artaud busca algo como um elo perdido, um ponto onde pode ser retomado o fazer teatral que se perdeu ao longo da história e se submeteu à imitação de um texto.  Esta essência foi identificada no contato com o teatro oriental que trazia no gesto e no movimento cênico a sua primazia.

A constante retomada de termos metafísicos na filosofia, de certo modo, impede o avanço no desvendamento das questões já que há uma ligação em toda a história de afirmação e crítica de conceitos.  Ao contrário, Artaud busca o que desviou o teatro de sua real essência e o aprisionou em uma forma fixa meramente repetitiva.  A ele cabe desembalsamar este teatro morto que resultará, da putrefação de suas estruturas fixas, a maleabilidade e o alimento para o seu renascimento.

Em comum está a crítica à reprodução, à imitação daquilo que é previamente determinado e que simboliza a morte tão somente quanto ao que é oposto ao que é vida, ou à descoberta de novas possibilidades para a expressão da investigação das estruturas do pensamento acerca das questões do homem ou da presentificação do teatro a partir do pensamento pré-filosófico ou do teatro primitivo.


[1] BERTHOLD, Margot – História Mundial do Teatro, Editora Perspectiva S/A, São Paulo, 2005, pág. 01

[2] DERRIDA, Jacques – A Escritura e a Diferença, Editora Perspectiva S/A, São Paulo, 1995, pág. 150

O Teatro como Linguagem (Parte 1)

por Guilherme Marin

INTRODUÇÃO

A palavra deixará de dirigir a cena, mas estará nela presente.  Ocupará um lugar rigorosamente delimitado, terá uma função num sistema ao qual será ordenada.[1]

A importância do Teatro da Crueldade de Antonin Artaud para a filosofia de Derrida se estabelece a partir da distinção que o diretor francês faz entre a encenação e o texto dramatúrgico na realização de uma obra teatral em contraposição à prática corrente na Europa.

A crítica de Artaud ao teatro europeu deriva do aprisionamento de diretores e atores à mera reprodução de palavras escritas em detrimento à construção da encenação enquanto linguagem única, liberta de representações fechadas de significado e que se constrói a cada espetáculo, proporcionando uma experiência singular pela relação entre o espectador e a cena.

Esta visão tem por objetivo dissociar o teatro enquanto um ramo da literatura, separando-o da linguagem sonora das palavras regidas por uma gramática morta, ou seja, que nada cria, apenas reproduz e imita.

Tal constatação derivou do contato com o Teatro de Bali com sua narrativa que se desenrola no espaço cênico e que reconstitui a união do pensamento, do gesto e do ato.  Não se trata da reprodução de caracteres previamente estipulados que compõem as palavras, mas de algo como hieróglifos tridimensionais animados.

O advento das novas tecnologias no início do século XX e sua possibilidade de reprodução em série marcou a modernidade e está no cerne da crítica de Artaud para um teatro que não deve ser representado (re-presentar), mas que se presentifica a cada encenação, vive e faz viver o espectador a partir da sobreposição de gestos, palavras, luz e cenários; trazendo à tona toda a complexidade cênica não mais submissa ao texto.  Os atores e diretores deixam, portanto, de ser meras marionetes a serviço da reprodução cênica de uma dramaturgia, mas tornam-se agentes criadores que definem uma gramática nova a cada apresentação e incluem o público como parte deste preenchimento das intuições a partir dos novos conceitos que se dispõem em um teatro vivo.

O teatro vivo nasce a cada apresentação a partir da morte daquilo que é passível de repetição e só assim, com a recriação das estruturas que regem a linguagem no momento imediatamente interior ao seu nascimento, pode levar à verdadeira experiência teatral pela recriação de mitos e ritos que estão na origem do teatro primitivo.

O procedimento de Artaud se aproxima do de Derrida já que busca na origem de seus conceitos a desconstrução e a exposição das contradições presentes nos argumentos investigados ao passo que ambos também tratam das questões da linguagem enquanto elemento vivo que representam a vida no período entre sua morte e seu nascimento.

Não se trata aqui de traçar uma mera retomada de estruturas a partir de fatos históricos, mas de reconstituir a capacidade simbólica da linguagem enquanto elemento que traduz a necessidade comunicativa da alma do autor e do espetáculo.  Este ensaio buscará a comparação entre procedimentos e conceitos acerca da linguagem e da gênese comum aos autores a fim de identificar as similaridades que levaram Derrida a dedicar um capítulo de seu livro “A Escritura e a Diferença” ao teatro da crueldade intitulado “O Teatro da Crueldade e o Fechamento da Representação”.


[1] DERRIDA, Jacques – A Escritura e a Diferença, Editora Perspectiva S/A, São Paulo, 1995, pág. 160

Prêmio de incentivo ao teatro – Funarte

A Fundação Nacional de Artes (Funarte) lança, nesta segunda-feira, 20 de julho de 2009, a quarta edição do Prêmio de Teatro Myriam Muniz, que viabilizará a realização de 86 projetos da área teatral, voltados para montagem e circulação de espetáculos ou outras atividades específicas do setor.

Companhias, grupos, coletivos, empresas, associações, cooperativas e – pela primeira vez – artistas independentes (pessoas físicas) que quiserem participar do processo seletivo devem enviar, via correio, suas propostas de trabalho e documentação completa (ver detalhes do edital) para a Coordenação de Teatro da Funarte, no Centro do Rio de Janeiro. As inscrições, gratuitas, serão encerradas no dia 3 de setembro.

Os prêmios, que variam entre R$ 40 mil e R$ 150 mil, estão distribuídos por todas as regiões brasileiras. Dessa forma, a Fundação dá continuidade à proposta de descentralizar seus recursos. O investimento total da instituição no programa é de R$ 7 milhões.

Uma comissão externa composta por nove especialistas em teatro ficará responsável por selecionar os contemplados. Serão analisadas a excelência do projeto, a qualificação dos profissionais envolvidos e a viabilidade prática das ações propostas.

O nome do prêmio é uma homenagem à atriz Myriam Muniz (1931-2004), que fez parte da geração precursora do Teatro de Arena. Reconhecida por interpretações marcantes no teatro e no cinema, a artista dedicou os últimos anos de sua carreira à formação de novos talentos.

Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz

Inscrições abertas até 3 de setembro de 2009

>> Leia o edital

>> Baixe a ficha de inscrição

Fundação Nacional de Artes

Coordenação de Teatro

Rua da Imprensa, 16 / 6º andar – sala 614

Centro, Rio de Janeiro, RJ

Cep 20030-120

Mais informações:

21 2279 8018

teatro@funarte.gov.br

Bolsa Funarte de Criação Literária

Inscrições até 13 de agosto

Bolsa Funarte de Criação Literária – Com o objetivo de fomentar a produção de textos literários inéditos nos gêneros lírico e narrativo, a Funarte contemplará, por meio deste programa, 10 autores brasileiros, dois de cada região. Cada um receberá uma bolsa de R$ 30 mil. Com essa iniciativa, a Fundação reconhece a importância da diversidade cultural e da produção literária brasileira. As obras propostas não sofrerão quaisquer restrições quanto à temática abordada. O programa está em sua terceira edição.

Confira o edital e os anexos:

Edital

Ficha de Inscrição

Mais informações:

Assessoria de Comunicação da Funarte

ascomfunarte@funarte.gov.br

21 2279 8065

comunicacaosp@funarte.gov.br

11 3662-5177

Saiba mais

Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua 2009

Inscrições até 7 de agosto

A Fundação Nacional de Artes (Funarte), em parceria com o Instituto Cultural Sérgio Magnani, lança o edital do Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua 2009 para viabilizar projetos de grupos, companhias, trupes e artistas independentes que busquem, em apresentações de rua, um novo significado para o espaço público. Ao todo, 60 projetos serão contemplados, com valores de R$ 20 mil, R$ 40 mil ou R$ 50 mil. As inscrições estão abertas até 7 de agosto.

Podem ser inscritos projetos de montagem ou circulação de espetáculos, performances cênicas e intervenções urbanas. Grupos e artistas com mais de dez anos de atuação na rua têm também a possibilidade de concorrer com propostas voltadas para o registro e a preservação memorialística de suas atividades.

O material de inscrição, que inclui a documentação do proponente e o projeto técnico das ações que pretende desenvolver (ver detalhes e especificações no edital), além de um formulário preenchido, deve ser enviado, via Correios, para o Centro de Artes Cênicas da Funarte, no Centro do Rio de Janeiro. Os selecionados deverão executar as ações propostas até 30 de abril de 2010, em pelo menos uma cidade brasileira.

A análise das propostas caberá a uma comissão composta por cinco especialistas em artes cênicas, que deverão considerar a excelência artística e a viabilidade prática do projeto, a qualificação dos profissionais envolvidos e a diversidade da produção das artes cênicas brasileiras. O resultado final será divulgado no Diário Oficial da União e no site da Funarte.

Leia o edital

Mais informações:

artescenicasnarua@funarte.gov.br | 21-2279-8018

Entrevista – Peter Brook

O homem-câmera

O dramaturgo Peter Brook fala da influência de Shakespeare, Tchekhov e Beckett em sua produção e diz que o fotógrafo Cartier-Bresson foi essencial para definir seu modo de encenar

FABIENNE DARGE

Aos 81 anos, o incansável viajante Peter Brook prossegue sua exploração do teatro como instrumento de descoberta da vida no que ela tem de mais diverso: uma estética da pluralidade, uma ética da curiosidade e da abertura, que o levam a montar mais uma vez esse “teatro das favelas” sul-africano com “Sizwe Banzi Morreu”, de Athol Fugard, John Kani e Winston Ntshona.

PERGUNTA - Quando criança, o senhor se apaixonou pela fotografia e o cinema. Mas foi o teatro que o fascinou. Como analisa isso?
PETER BROOK - A partir do momento em que comecei a abrir os olhos para o mundo ao meu redor, achei fascinante tudo o que via. Entrei na vida -e fiquei por muito tempo- com esse fascínio do viajante, do aventureiro: tudo o que passava pelos olhos era para mim o alimento da vida. Mas, se você vê a vida dessa maneira, fica numa espécie de solidão. Como naquela famosa canção inglesa [de Albert Hammond], “I’m a Camera”. Portanto, de certo modo, é isso o que sou: uma câmera fotográfica. Para mim, fazer cinema era colocar esse olho da câmera pessoal atrás do olho da lente, e com ela penetrar o mundo. Mas, se sou uma câmera, isso significa que há uma só pessoa no centro, a que está atrás da lente. Quando comecei a trabalhar em cinema, na Inglaterra, nos anos 1940, eu não era absolutamente anti-social, tinha muitas relações, mas era um caminho de vida puramente individualista.

PERGUNTA – Foi essa constatação que o levou ao teatro?
BROOK - Na Inglaterra extremamente fechada e cinzenta daquela época, interessei-me primeiramente pelo teatro por causa do ambiente que ali reinava: uma certa energia, uma certa excitação. O teatro em si era um tédio mortal, mas no interior dessa forma artificial havia uma grande vitalidade. Assim, me aproximei desse mundo, comecei a montar peças, e aí, trabalhando com os atores, na relação entre o grupo de atores e um grupo maior que é o público, descobri, mais que a alegria, a verdade de estar num trabalho coletivo. A profunda satisfação de realizar, de compartilhar uma coisa, do primeiro dia até o momento tão importante e delicado das representações. Costumo comparar o teatro à cozinha: os ensaios são uma preparação em vista do momento em que a refeição será saboreada junto com os espectadores. E esse momento deve, a cada vez, ser totalmente respeitado. Sempre pensei que todo trabalho teatral que despreza o público não é teatro.

PERGUNTA – O sr. emprega com freqüência metáforas fotográficas para falar de seu trabalho. E refere-se muitas vezes a Cartier-Bresson…
BROOK – Trabalhando, aprendi que aquilo de que mais devemos desconfiar é a tentação de impor uma forma a uma peça. Para mim, o trabalho teatral deve permitir que a forma natural da vida, que está sempre escondida, suba à superfície. Acho terrível chegar, como diretor que vai montar “Hamlet” ou qualquer outra grande peça, com uma idéia muito preparada: “minha” leitura da peça. Não tenho o direito de ter uma leitura própria dessa peça. Mas, ao mesmo tempo, ler a peça em voz alta não basta para que sua verdadeira vida oculta suba à superfície.

PERGUNTA - É isso que o liga ao trabalho de Cartier-Bresson?
BROOK - O extraordinário em Cartier-Bresson é que ele desenvolveu algo além da sensibilidade: uma forma de percepção que tornava natural o fato de que, estando lá, com sua máquina, com milhares de formas de vida que passavam a cada instante diante de seus olhos, ele podia sentir com um milissegundo de antecipação que haveria um desses momentos em que todos os elementos diante dele estariam ligados de uma determinada maneira. Um desses momentos em que todas essas ligações que estão sempre presentes, subterrâneas, seriam subitamente visíveis. E essa intuição lhe dava tempo de erguer a câmera, apertar o botão e captar o que ele chamava de momento preciso, o momento vivo.

PERGUNTA - Como esse tipo de postura pode se traduzir no teatro?
BROOK - Com freqüência, nos ensaios, usamos fotos para que os atores possam se aproximar de uma vida que era distante deles, deixando-se invadir por essas imagens. A partir daí, um pouco como Cartier-Bresson, o ator deve sentir, encontrar o que precede esse momento e o que vem depois. Partimos da pesquisa de um momento preciso, para que não haja apenas um momento preciso, mas vários momentos precisos, para que seja a vida escoando por meio deles. O que quer dizer, afinal, o trabalho de ator? É pôr em relevo o que normalmente passa despercebido: os impulsos, as reações, tudo o que está escondido no ser humano.

PERGUNTA - Para o sr., há três pontos culminantes no teatro: os gregos, Shakespeare e Tchekhov…
BROOK – Beckett também…

PERGUNTA - Mas, se Shakespeare é uma coluna vertebral em sua trajetória, o senhor afinal montou pouco os gregos, Tchekhov e Beckett…
BROOK - O motivo pelo qual gosto tanto de Shakespeare é que ele não tem um ponto de vista. Ninguém pode dizer sobre uma de suas frases: “Ah, aí ouvimos a voz do autor, foi isso que ele quis dizer…”, enquanto na maioria dos autores ouvimos a cada instante a voz e a autoridade do dramaturgo, que utiliza essa forma coletiva como instrumento pessoal para falar ao mundo. Quando montei “Don Giovanni”, de Mozart, não tinha a impressão de que era um mundo fechado vindo do cérebro, do espírito, de um certo compositor; não, era um material vivo, exatamente como o que está por trás desse momento de Cartier-Bresson. A maravilha de Shakespeare é que esse homem conseguiu muito rapidamente absorver todas as impressões da vida ao seu redor, incluindo o que estava distante dele, vindo de classes sociais que ele nunca havia freqüentado. E depois, no momento da escrita, que aparentemente para ele era de uma rapidez extraordinária, toda a vida era repassada, com os suportes necessários: porque é preciso ter histórias, é preciso ter personagens. E eram iluminados de uma maneira extraordinária por essa criatividade absoluta, vinda de um homem que não queria se impor para impedir que alguma coisa além dele aparecesse. Shakespeare é um fenômeno.

PERGUNTA - E Tchekhov?
BROOK - Tchekhov também é um fenômeno: um grande escritor, cuja profissão não foi sempre essa. Enquanto médico, todos os dias, o tempo todo, ele estava na posição de observador. Ele estava lá, absorvia a vida das pessoas de todos os meios sociais. Mas é um observador preocupado, envolvido, profundamente tocado pelo sofrimento humano: por exemplo, foi a Sakhalina para fazer um grande livro sobre aquele campo de deportação… Mas era envolvido e distante ao mesmo tempo, e nos momentos de distanciamento via o absurdo da vida. Para ele, a tragédia, a tristeza, o tédio eram onipresentes; no entanto há em suas peças, no interior do pequeno universo que descreve (muito mais limitado que Shakespeare), o mesmo interesse pelo desconhecido da vida que existe no autor de “Hamlet”. É uma verdadeira forma de generosidade: abandonar o que queremos dizer para acolher os outros…

PERGUNTA - Como isso acontece em Beckett?
BROOK - Beckett é totalmente extraordinário. Em primeiro lugar, porque teve uma generosidade real, uma maneira de olhar para a vida e o teatro com formas que são totalmente criadas por ele. Imagens, como em “Dias Felizes” ou como a árvore de “Esperando Godot”. E essas imagens são ao mesmo tempo inseparáveis de um sentido, da musicalidade que une a palavra ao silêncio. Com sua distância e seu humor, com essa recusa em deixar a personalidade e a emoção do ator submergirem em seu próprio objetivo, com o combate doloroso para que cada frase seja precisa, ele entrou profundamente no que acontece continuamente no interior dessa caixa desconhecida que é o ser humano. Se ele via apenas miséria e tragédia, é porque todos nós somos, a todo instante, completamente prisioneiros de nosso passado. Veja uma peça como “A Última Fita de Krapp”: trata-se de alguém que, por mais que se esforce, não consegue sair do fato de que toda a sua vida passada está registrada e não pára de voltar. E, de repente, ele não pode nunca mais estar no presente: sempre, sempre, o presente é reencontrar a velha fita.

PERGUNTA - O sr. considera Beckett um trágico puro?
BROOK - Ao montar “Dias Felizes” -acabo de encená-la em alemão, em Berlim-, fiquei profundamente tocado pelo fato de ele ter decidido que o personagem central fosse uma mulher. No meio de todas essas peças terríveis, cheias de mendigos, há coisas muito mais femininas, como “Cadeira de Balanço”, e depois essa grande peça em que o homem tem um papel muito obscuro e miserável. Mas a mulher também é trágica: é de tal forma prisioneira de sua pequena fita que se repete o tempo todo, de tal forma prisioneira da banalidade… Ao mesmo tempo -e é o que torna essa peça tão importante-, essa mulher totalmente enfiada no mundo, na terra em que ela se afunda, também deseja ser como o pássaro, voar alto, e não ser absorvida pela terra. Por trás da tagarelice dessa mulher, abrem-se brechas para o desconhecido -e nesses momentos sentimos a grandeza da peça, que nos coloca diante do intolerável, do impossível. É o efeito trágico que existe nas tragédias gregas, em que, nos piores momentos, o público é subitamente colocado diante de alguma coisa que supera a miséria humana, supera a crueldade, a bestialidade.

PERGUNTA - Qual é o papel da África em seu teatro?

BROOK - Na origem da criação do Centro Internacional [de Pesquisa Teatral, em Paris, do qual foi fundador], havia a convicção de que nossa pequena cultura arrogante e fechada tinha tudo a aprender com as outras. O interesse pela África não era maior que o interesse pelo Japão ou a Índia, mas era menos conhecido. Eu achava -e acho cada vez mais- as imagens da África extremamente parciais, mesmo entre muitos dos que dizem amar a cultura africana. É muito raro considerarmos a África uma civilização realmente rica e profunda. E por motivos pessoais e humanos, mas também sociais, é uma coisa importante para mim: o racismo tal como o conhecemos hoje é algo que devemos combater. Pelo exemplo, porque as declarações não servem para nada.
Mas não é só isso. É também a consciência de uma riqueza extraordinária: a África é o humano. E, se quiser, em seu teatro, dizer algo sobre a humanidade, não pode fazê-lo sem essa contribuição. É simples assim. Foi por isso que fiz “A Tempestade” [de Shakespeare] com o ator malinês Sotigui Kouyaté no papel de Próspero.

PERGUNTA - Sua relação com a África negra também tem a ver com a narrativa, com o conto?
BROOK - Quando se trata de teatro, a tradição oral, que aliás está desaparecendo, é sempre importante. O bom ator africano -nem todo mundo é feito para ser ator, inclusive na África!- é principalmente orgânico. Não tem necessidade de aprendizado para isso, de estudar mímica ou commedia dell’arte: ele tem essa capacidade de transmitir suas imagens internas com o corpo, sem uma técnica determinada. Essa técnica, que os grandes atores ocidentais às vezes trabalham durante anos, dá aos atores africanos uma grande naturalidade, que não se perde no trabalho com a técnica.

PERGUNTA - É verdade que um de seus lemas é a frase de “Hamlet”: “the readiness is all” -que poderíamos traduzir como “estar preparado é tudo”?
BROOK – Está vendo, fechamos o ciclo: voltamos a Cartier-Bresson. Se ninguém faz fotos como as dele, é porque ele estava a todo instante “ready”, aberto, preparado.

Este texto saiu no “Le Monde”
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

Prêmio Funarte Carequinha de Estímulo ao Circo

fonte: Cultura e Mercado
Estão abertas as inscrições para o Prêmio Funarte Carequinha de Estímulo ao Circo, premiação criado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) para apoiar companhias, empresas, associações, trupes ou grupos circenses que queiram adquirir equipamentos, produzir espetáculos, realizar pesquisas, promover mostras e festivais ou homenagear artistas que tenham contribuído para o desenvolvimento do circo.

O processo seletivo está aberto a projetos e proponentes de todas as regiões brasileiras. Ao todo, R$ 2,7 milhões serão distribuídos em prêmios; 103 proponentes serão beneficiados. O investimento total é de R$ 2,9 milhões.

Interessados em participar do concurso devem enviar seus projetos até o dia 26 de junho de 2009, via Correios, para a Coordenação de Circo da Funarte. A seleção será realizada por uma comissão composta por cinco especialistas em arte circense, um de cada região do país. A análise levará em consideração a excelência artística do projeto, a qualificação dos profissionais envolvidos, a diversidade da produção circense brasileira e a viabilidade das ações propostas.

Para acessar o edital completo, clique aqui. Mais informações podem ser obtidas através do e-mail edital
circo@funarte.gov.br ou pelo telefone (21) 2279 8034.

Programa BR Cultura – inscrições prorrogadas

O Programa BR de Cultura 2009/2010 foi criado com objetivo de democratizar o acesso e dar maior transparência ao processo de seleção de patrocínios culturais da Petrobras Distribuidora.

Composto de duas modalidades, o Programa contempla projetos de continuidade e abrirá espaço para novos patrocínios através de seleção pública.

Como o Programa BR de Cultura faz parte da mesma política de patrocínios do Programa Petrobras Cultural – o PPC, a Seleção Pública será específica para um segmento até então não contemplado pelo Sistema Petrobras: a circulação de peças teatrais.

As inscrições para Seleção Pública foram prorrogadas e estarão disponíveis de 6/4/2009 a15/5/2009, nesta página do Portal BR, mediante preenchimento de formulário e envio de documentos digitalizados.

A Seleção Pública do Programa BR de Cultura 2009/2010 será exclusiva para peças teatrais não inéditas, que estiveram em cartaz nos últimos três anos e que proponham turnês em cidades diferentes às que os espetáculos já se apresentaram.

Não é mais necessária a inscrição prévia na Lei Rouanet. Para os projetos contemplados a aprovação na lei será condição para a formalização do patrocínio. 

Para maiores informações clique aqui.

FIT – Rio Preto

Aberto o processo de inscrição de trabalhos para o FIT RioPreto 2009.  Até 24/04/2009.

São 40 anos de história.  Trajetória que vem desde 1969, quando foi realizado o primeiro Festival Nacional de Teatro, passando por 2001, ano em que se institui o Festival Internacional.

O FIT Rio Preto, estabelecido como um  dos mais importantes eventos de artes cênicas do Brasil, contribui para a valorização do teatro e o intercâmbio de informações e idéias entre o público e profissionais da área.

O festival investiga um teatro questionador, provocador, sempre á procura de novas linguagens, discutindo os paradigmas da arte.

Acredita no teatro como um importante instrumento na construção da identidade brasileira, estimulando o espectador a enxergar o mundo sob a ótica da criticidade, da reflexão, da resistência, do desenvolvimento intelectual e da participação social.

O Festival Internacional de Teatro de Rio Preto continua a sua trajetória em 2009.

Entre 16 e 25 de julho companhias nacionais e internacionais apresentarão seus trabalhos para todos os públicos, fazendo com que a arte seja compartilhada, revisitada, questionada, e exerça plenamente seu papel de elemento transformador da sociedade.

para maiores informações:

http://www.festivalriopreto.com.br/